Entrevista detalhada publicada na página «Spain Today» da plataforma Weixin. A versão original em chinês pode ser lida neste link:
那个受西班牙王后亲自颁奖的年轻人,和你不一样却又一样 (qq.com)
A seguir, a versão em espanhol da entrevista:
1. Uma pessoa mantém sempre uma relação especial com uma cidade ou uma aldeia, como no caso de Antuérpia, que no Oriente se conhece graças a Rubens. Disseste-me que na tua aldeia natal, em Álava, vivem apenas 1500 pessoas. Georg Simmel, nas suas obras «A metrópole e a vida do espírito» e «Filosofia do dinheiro», distingue entre as grandes cidades e as pequenas aldeias e sublinha que a busca do dinheiro na sociedade capitalista colide com o desejo interior de intimidade e de vocação sagrada. O que pensas desta perspetiva?
O choque entre aldeia e cidade é um tema recorrente. Neste contexto, não podemos esquecer os tópicos horacianos do ‹locus amoenus› (o atrativo de uma natureza virgem e pura) e do ‹beatus ille› (a paz e a felicidade que nascem de viver longe do ruído e do escândalo das cidades). No entanto, continua a ser um tópico, porque nas aldeias também há ruído. Às vezes demasiado. Como diz um popular provérbio espanhol: «pueblo pequeño, infierno grande» (aldeia pequena, inferno grande). Nas aldeias todos se conhecem e, embora haja quietude, paz e muita beleza, há também lugar para o mexerico e a maldade. Felizmente, não posso dizer isso da minha aldeia, Arceniega. É um lugar verdadeiramente extraordinário e as pessoas são, na sua maioria, agradáveis, simpáticas e bem-intencionadas. E, como se não bastasse, é também uma das aldeias mais bonitas de todo o norte de Espanha.
Sobre a tua pergunta, acrescentaria que a tensão entre o urbano e o rural mudou radicalmente nos últimos tempos, graças ao desenvolvimento da tecnologia, da comunicação, da globalização e das grandes cidades. Antigamente, as cidades eram no fundo pequenas aldeias onde a maioria das pessoas se conhecia e frequentava os mesmos círculos culturais. As grandes cidades de hoje têm um caráter completamente diferente. O indivíduo pode alcançar uma autonomia até então desconhecida e organizar a sua existência de acordo com as suas necessidades, num anonimato social quase perfeito, se assim o desejar. Além disso, as oportunidades de trabalho parecem concentrar-se, para a maioria da população, nas cidades e nas suas infraestruturas, sendo o teletrabalho, pelo menos em Espanha, uma opção minoritária. Isto provocou um êxodo maciço das zonas rurais, cada vez mais abandonadas e envelhecidas. Este fenómeno, juntamente com a imigração em massa, vai mudar radicalmente a cultura e a identidade espanholas.
Neste contexto, a situação do artista é bastante complicada. Por um lado, a beleza e a tranquilidade da aldeia são excecionais para criar. Por outro, as possibilidades sociais e comerciais encontram-se nas grandes cidades.
2. Algumas organizações económicas mundiais preveem que, devido aos efeitos da pandemia na saúde mental, as pessoas tenderão a escolher setores estáveis em vez de inovadores. Qual é, então, a força que te leva a continuar no caminho de ser artista?
Quando se inicia uma aventura profissional por conta própria, não só na arte, mas em qualquer outro campo, pode-se ponderar o que se pode ganhar ou perder. Prefiro sempre olhar para o que posso ganhar, porque não temo nem a derrota nem o fracasso. O que me pode acontecer se falhar? Ter de procurar um emprego por conta de outrem? Não me tornar milionário? Seria muito pior acabar assim sem ter tentado, censurando-me todos os dias por não ter tido a coragem de me dedicar àquilo para que muita gente diz que tenho talento. De qualquer forma, acho interessante analisar mais a fundo esta questão no contexto espanhol.
A preferência pelo estável em vez do inovador remonta aqui a muito antes da pandemia. Pelo menos em Espanha, pode estabelecer-se uma ligação muito clara entre a geração do pós-guerra civil e o surgimento desta cultura da segurança de vida. A geração do pós-guerra, ainda muito traumatizada pelo que tinha vivido e sob a proteção do novo sistema social do franquismo, deu prioridade à formação dos filhos. Medicina, engenharia, arquitetura ou direito pareciam apostas seguras para uma vida cómoda e sem preocupações, mais do que vocações de grande compromisso vital. Com a chegada da democracia, esta cultura atingiu o seu auge, de tal modo que se instalou na consciência coletiva a falsa ideia de que a formação técnica equivale ao sucesso na vida.
Embora este fenómeno tenha começado com a aspiração à segurança de uma geração que sofrera grandes privações, a chave da sua persistência tão longa não é prática, mas moral. Com efeito, ao longo dessa aspiração, misturada com as raízes católicas da nossa sociedade, impôs-se a ideia de que o sucesso só pode ser consequência do sofrimento e do sacrifício. Alcançar o sucesso sem grande sofrimento, apenas com trabalho e talento (artístico, comercial, social…), tornou-se rapidamente um dos factos mais desprezados e temidos da sociedade espanhola. Ainda me lembro das palavras de muitos professores na escola, que nos diziam: «Mais vale estudarem algo sério, senão vão acabar numa obra ou debaixo de uma ponte, na miséria». A grande ironia é que essas carreiras técnicas, que antes garantiam uma vida cómoda, se tornaram hoje precárias, sobretudo pela grande oferta de mão de obra nesses setores. Assim, um trabalhador independente que seja um bom artesão de remodelações ou instalações ganha nitidamente mais do que muitos advogados, engenheiros ou arquitetos assalariados. Para não falar dos que se estabelecem por conta própria e têm algum talento comercial.
Em suma, os empregos seguros são apenas uma ilusão. Porque, além de tudo o que mencionei: de que serve um emprego estável se se odeia realmente esse trabalho? Essa estabilidade pode até ser um castigo sem fim. Ou seja, é preciso procurar o ofício que melhor se adapte aos interesses e à natureza de cada um. Quanto mais o ofício for uma vocação, mais sucesso se terá nele, porque, na minha opinião, o sucesso não consiste tanto em ganhar dinheiro como em fazer bem o trabalho e estar satisfeito com ele.
3. Elaine Aron assinala-nos em «A Pessoa Altamente Sensível» que os artistas fazem parte do quinto de pessoas hipersensíveis, o que significa que os artistas podem perceber mais dor do que as pessoas comuns. Como lidas com a tua frustração e a tua dor na vida, por exemplo, o fim de uma relação muito importante, a deceção com um projeto, etc.?
A sensibilidade é algo que não consigo racionalizar, que simplesmente existe e acontece. A dor sempre me marcou; creio que a vida é em grande parte uma experiência trágica. Mas, na minha opinião, a chave é que o doloroso não é necessariamente negativo. Pelo contrário, o doloroso pode ser belo, pode ser justo e pode ser bom, mesmo que nos doa muito. Por outro lado, concordo que o artista tem uma sensibilidade mais desenvolvida (ou melhor, diferente) para a dor, porque o seu trabalho consiste em grande parte em contemplar o mundo e articular esteticamente os sentimentos, sensações, paradoxos e contradições que nele observa. Mesmo as artes mais abstratas, como a música, nascem desta contemplação do mundo e da natureza humana. Assim, mais do que sensível à dor, o artista é simplesmente consciente da sua realidade, enquanto a maioria das pessoas dá as costas à dor porque não teve de parar para a olhar com atenção. Não estando habituadas a contemplá-la, tornam-se insensíveis, o que não significa que não possam desenvolver essa sensibilidade. As artes (especialmente a narrativa e a poesia) são, aliás, o melhor meio de formar a sensibilidade. Neste sentido, conheço muitos grandes leitores de literatura cuja sensibilidade iguala ou supera a de muitos artistas. Ao mesmo tempo, o artista, tal como o leitor, pode cair no extremo oposto e tornar-se extremamente insensível, quase um psicopata, quando a contemplação da dor se torna demasiado grande, extrema, obsessiva e perigosa.
A minha forma de lidar com a frustração é a confiança em mim mesmo e no que faço. Se um artista não acredita em si, está completamente perdido. Claro que muitas coisas nem sempre correm como previsto. No entanto, tenho a certeza de que o importante é confiar na realização de um bom trabalho, valioso em si mesmo, e manter esse esforço ao longo do tempo. Como dizia, a satisfação do trabalho bem feito é o verdadeiro sucesso.
4. Quem é o teu autor inglês preferido e que acolhimento ou influência teve na tua consciência artística?
Sinceramente, é-me muito difícil falar de um autor preferido. Há muitos autores da literatura inglesa e de muitas outras línguas que me influenciaram profundamente. Para citar alguns nomes, ficando na literatura inglesa, fico por estes quatro: Shakespeare, Milton, Keats e William Blake.
De Shakespeare admiro a profundidade e a ambiguidade. Shakespeare mostra como poucos como deve funcionar uma obra de arte. Sobretudo, como a boa arte consiste em formular problemas de difícil resolução. Enquanto a tradição trágica clássica remetia sempre para um destino transcendente, cujos decretos o homem não pode evitar, e terminava numa ordem perfeita mas dolorosa, Shakespeare ilumina a realidade em toda a sua complexidade. O mal e o bem, a prudência e a insensatez, a virtude e o vício misturam-se até formarem um retrato irrefutável da frágil natureza humana. De Milton agrada-me o uso da linguagem, a habilidade para construir um texto entre a épica e a revelação. É fantástico ver como consegue fazer do «Paraíso Perdido» um livro quase revelado, de uma ambição sem limites. A sua obra principal foi escrita, como ele próprio confessa, com a intenção de «justificar os caminhos de Deus aos homens», sem dúvida a razão mais ambiciosa que se pode imaginar para escrever um poema. De Keats agradam-me a sensibilidade e a beleza absoluta. Creio que li poucos poetas com um sentido mais elevado da beleza. A forma como desenvolve as suas metáforas, a musicalidade e a força evocativa dos seus versos são dificilmente superáveis. Por fim, de William Blake admiro a originalidade radical, a ambição filosófica e teológica e a exploração da beleza e da verdade através dos estados de inocência e de experiência. Neste sentido, não houve na história poeta mais original do que ele. Blake inventou a sua própria mitologia, a sua própria forma de imprimir, a sua própria forma de ilustrar os seus textos… Admiro, além disso, que não ofereça uma leitura filosófica ou teológica simples; o seu pensamento contém nuances que fazem justiça à complexidade da realidade que nos rodeia.
5. Disseste que gostas do poeta chinês Li Bai; um dos seus versos diz: 今朝有酒今朝醉,明日愁来明日愁, que significa: «Hoje há vinho, hoje bebe-se; as preocupações, deixa-as para amanhã.» Li Bai defendia uma atitude de viver o aqui e agora, na verdade muito diferente do racionalismo que a filosofia continental ocidental enfatiza. Como ocidental, o que pensas da razão e do planeamento da vida?
Quanto ao planeamento, creio que é necessário ter uma meta, mas ao mesmo tempo é impossível saber exatamente como lá chegar. O importante é confiar no rumo e não se fechar ao enriquecimento de vida que trazem as experiências não planeadas. De facto, todos podemos ver que as coisas que acontecem sem terem sido planeadas costumam ser as mais belas e as melhores. Se se quer controlar todas as variáveis da viagem, a viagem torna-se impossível, absurda e aborrecida. Tem de haver sempre espaço para a improvisação e a aventura. Em suma, o saudável, na minha opinião, é o meio-termo entre planeamento e hedonismo. Neste sentido, creio que as filosofias e religiões orientais têm muitas vezes uma melhor atitude perante a vida. Por isso me identifico muito com o princípio taoista do wu wei. Por outro lado, é problemático falar do Ocidente como uma unidade, porque existe uma diferença enorme entre o mundo protestante e as culturas mediterrânicas católicas na visão da vida. A ética protestante simplificou e materializou a moral católica, substituindo a necessidade das boas obras pela adoração idólatra do trabalho. Do ponto de vista protestante, o sucesso e o êxito profissional são um sinal da graça divina, enquanto o catolicismo dá mais importância aos valores não materiais. Ainda hoje podemos observar como o estilo de vida católico é completamente diferente do do norte da Europa e do mundo protestante: as pessoas são menos orientadas para o utilitarismo e mais para a convivialidade e o prazer. Por isso creio que a visão da vida de Li Bai não é tão diferente da de autores católicos como, por exemplo, Quevedo. E é precisamente por isso que as relações entre a China e o mundo católico me parecem tão boas e frutíferas, e a cultura espanhola tão apreciada na China. No entanto, a globalização da cultura capitalista anglo-protestante pôs em perigo os valores e as tradições das outras culturas. Com o impulso da globalização, o culto do trabalho excessivo começou a espalhar-se por todo o Oriente. Creio, porém, que as coisas estão a mudar, e alegra-me saber que a China protege a imensa riqueza das suas preciosas tradições contra o imperialismo anglo-protestante.
6. Tens muitos amigos em Madrid. Aristóteles distingue três tipos de amigos: por utilidade, por prazer e por virtude. Que princípio te guia ao fazer amigos?
Creio que a amizade deve ser profundamente altruísta e nascer simplesmente da vontade de compreender, ajudar e amar os outros. Claro que há fatores ligados à utilidade ou ao prazer que podem dar uma cor especial a essa vontade, mas a amizade que prescinde dessa vontade não é verdadeira amizade, mas uma coincidência de circunstâncias na vida das pessoas. Quando essa coincidência desemboca num amor puro e desinteressado, podemos falar de amizade. Neste sentido, na forma de forjar as minhas amizades estou mais próximo da virtude, embora muitas vezes elas não nasçam num ambiente particularmente virtuoso.
Ter trabalhado durante algum tempo como vendedor levou-me, paradoxalmente, a concentrar-me em compreender os outros, porque até então estava demasiado centrado em mim mesmo. E assim abriu-se-me um mundo novo: descobri que a melhor forma de nos conhecermos a nós mesmos é conhecer os outros e descobrir aquilo que nos é alheio, sem renunciar à própria identidade. Aprendi tanto com as minhas amizades que teria de escrever cinco romances para o transmitir devidamente. Por outro lado, como já disse, gosto de ver a amizade como um serviço aos outros e dos outros a nós. Esta disposição de servir não deve ser confundida com a finalidade da amizade, porque então não seria amizade, mas um interesse frívolo e efémero, como acertadamente observa Aristóteles. A dedicação que a verdadeira amizade exige é o fruto que nasce quando ela é verdadeira, isto é, quando surgem verdadeiro amor, admiração e afinidade por outra pessoa.
Quanto às circunstâncias da amizade que considero importantes, resta-me mencionar a aprendizagem constante que ela implica. Neste sentido, embora Aristóteles se concentre no que os dois membros de uma amizade têm em comum, para mim o mais interessante é o que me distingue dos meus amigos. Isso permite-me aprender sobre infinitos temas e circunstâncias a que nunca teria chegado sozinho. Na verdade, a amizade é sobretudo um veículo de aprendizagem. Talvez pelo meu amor à literatura, gosto de conhecer outras realidades, porque para mim cada pessoa é um mundo aberto ou um romance interessantíssimo, e quanto mais diferente e alheio às minhas circunstâncias, mais esse romance me interessa. Assim, sinto que quantas mais pessoas conheço, mais aprendo, e sobretudo com aquelas de quem menos espero aprender.
7. Muitos peritos estão preocupados com a ameaça que a inteligência artificial representa para a existência humana. Por exemplo, o motor Midjourney, de que falámos, pode produzir pinturas digitais. O que pensas das diferenças entre a inteligência artificial e a criação artística? A arte continua a ser única pela emoção que os computadores não podem substituir?
A ameaça da inteligência artificial à criação humana é um tema cada vez mais recorrente. Os novos motores de IA que chegaram ao grande público mostram criações surpreendentes; nem se ousa imaginar o que poderão fazer os modelos mais avançados, ainda fora do alcance do público. A inteligência artificial produz imagens harmoniosas, detalhadas, bem compostas, com um sentido estético e estilístico próprio. No entanto, continuam a ser reproduções digitais. A pintura oferece um objeto físico, único, sujeito ao longo do tempo a mil nuances de estado e de forma. É certo que a arte digital e a ilustração serão provavelmente ameaçadas. Ainda assim, não creio que a elimine por completo, nem a nenhuma outra forma de arte, tal como a fotografia não eliminou a pintura. Porque, embora a inteligência artificial possa substituir em grande parte as obras de arte mais medíocres, ser-lhe-á impossível alcançar a profundidade necessária para rivalizar com a verdadeira arte. Para o explicar, gostaria de citar um conceito muito importante da obra de William Blake. Blake dizia que a verdadeira criação emana do ‹poetic genius›, o génio poético. Para Blake, o ‹poetic genius› é uma forma criativa de perceber a realidade, a capacidade humana de criar o que nunca foi criado nem percebido antes, para além da ‹razão dos cinco sentidos›, isto é, da soma do que percebemos através dos cinco sentidos. A inteligência artificial nem sequer pode experimentar a perceção dos cinco sentidos; opera apenas a partir do que, tanto quanto sabe, os humanos sentiram. Ou seja, a inteligência artificial pode imitar muito bem os sentimentos e as reações que os acontecimentos produziram até agora nos humanos, mas nunca expressar um sentimento que não tenha já sido sentido. A forma como cada artista sente o mundo é absolutamente única e, embora a inteligência artificial possa tornar-se uma boa impostora, ficará sempre aquém da verdadeira criação. Perante esta realidade, os programadores e peritos em inteligência artificial afirmam que um dia poderá sentir, através da reprodução computacional das estruturas cerebrais. Este cenário levanta ainda muitas dúvidas e espero que nunca lá cheguemos, porque significaria o fim do humano.
8. John Berger sublinha para os artistas a experiência dos cinco sentidos. Por exemplo, menciona «O Tato» de José de Ribera, no Museu do Prado. Por outro lado, o prazer do chá, de que tanto gostas, é também uma forma de cultivar o gosto. Podes contar-nos uma recordação que tenha deixado marca nos teus cinco sentidos?
As artes jogam de facto com os sentidos e, no fundo, a arte é uma experiência sensorial. Talvez o mais interessante deste aspeto seja como os nossos sentidos se podem despertar ao contemplar arte. Ribera é um excelente exemplo desta circunstância estética. As suas obras despertam o sentido do tato através de um tratamento extraordinário do volume, da luz que emprega e da sua forma de aplicar a tinta. Na obra mencionada por Berger, essa sensação é ainda reforçada pelo tema escolhido: Ribera nunca poderia ter escolhido um assunto mais adequado à sua pintura. Se tiver de me referir a recordações pessoais dos cinco sentidos, ocorrer-me-iam muitas recordações de jantares fantásticos com excelentes vinhos e boa companhia. Se me referir à experiência dos sentidos na arte, ficaria sem dúvida com Velázquez. Velázquez é o pintor sensorial por excelência, porque a sua pintura oferece uma imersão total na ação e consegue despertar quase todos os sentidos. Em «As Fiandeiras», por exemplo, não só se pode ver o movimento, como também ouvir a agitação e a confusão da cena complexa. Em «A Forja de Vulcano» sente-se o suor, o cheiro da forja e do fogo, do trabalho e do metal, mas também se ouve o som do martelo e das ferramentas de ferreiro. Por fim, em «O Triunfo de Baco» (Os Bêbados) sente-se o sabor do álcool, as brincadeiras, os gritos, o cheiro do álcool… Velázquez é único na sua forma de entender a pintura; é quase como se um realizador de cinema moderno tivesse começado a pintar na época barroca.
Quanto ao chá, o que mais me fascina é a sua incrível variedade de sabores e nuances. Tantos fatores podem alterar o seu sabor! A planta do chá é tão sensível às mudanças do ambiente que pode absorver qualquer aroma ou sabor. De facto, umas poucas folhas de chá usadas podem absorver o mau cheiro de uma sala. É pena que no Ocidente o bom chá não seja apreciado como o bom vinho. Tenho a certeza de que, com um pouco de curiosidade e conhecimento, quem aprecia o bom vinho pode apreciar o bom chá.
9. Existe sempre um limiar entre a alta cultura e a cultura popular, mas hoje a secularização e a divulgação popular da arte colocam um problema de sobrevivência que todo o artista tem de ter em conta. O que pensas deste fenómeno?
Começo pelo contexto artístico ocidental, em particular o europeu. Aqui, a arte foi outrora dominada pela aristocracia. O gosto aristocrático exigia um estilo grandioso, ambicioso e monumental. E, além disso, financiava-o com somas de dinheiro consideráveis. O aristocrata escolhia os seus artistas unicamente pelo talento e pela qualidade das obras. Assim, artistas de vida e valores miseráveis, como Caravaggio, conquistavam o favor dos mais nobres. Depois da Revolução Francesa, da queda da aristocracia e da ascensão do capitalismo, impôs-se o gosto burguês. A arte tornou-se pouco a pouco um fenómeno comercial semelhante à moda, em que o valor mais importante passou a ser a criação de uma representação fácil de entender, identificável, renovável e descartável. Assim, a ideia de ‹estilo› impôs-se à ideia de beleza ou monumentalidade. Algumas disciplinas, como a escultura ou a arquitetura, foram completamente destruídas por esta nova conceção. Isto não significa, porém, que artistas com elevado sentido da beleza, como Sorolla ou Klimt, não tenham tido sucesso, mas que a razão do seu sucesso tem muito mais a ver com o seu estilo facilmente reconhecível do que com o seu elevado sentido da beleza.
Ao mesmo tempo, amplas camadas da população puderam aceder à educação e desenvolver assim uma maior apreciação da arte. A televisão e a rádio, nos seus primórdios, contribuíram para essa popularidade estimulando o interesse pela alta cultura com diversos programas de entrevistas, peças de teatro, musicais e uma divulgação cultural de qualidade. Nos anos 90, porém, surgiu o fenómeno da televisão-lixo e do sensacionalismo, e a televisão tornou-se um divulgador massivo de uma forma de entretenimento baixa e miserável, que impediu as novas gerações de atingirem o nível cultural dos seus antecessores. Neste contexto de decadência cultural, a chegada da internet, dos videojogos e das redes sociais só agravou o problema. Vargas Llosa descreve muito bem este fenómeno no seu ensaio «A Civilização do Espetáculo».
No mundo da arte, esta popularização do entretenimento vazio e da cultura popular provocou uma grande crise. A burguesia e as classes médias e altas da sociedade, que até então eram consumidoras de alta cultura e viam na arte um sinal de superioridade cultural e social, foram perdendo o interesse por ela, para já não falar de investir dinheiro. O verdadeiro mercado da arte, como fenómeno popular, situa-se desde então fora da Europa decadente e do mundo anglo-saxónico. A China e até a América Latina têm hoje amplos setores da sua população de alto nível cultural, que querem distinguir-se, crescer e colecionar arte. O eixo da cultura e do futuro económico da humanidade situar-se-á entre a China e a América Latina, e espero que isso suscite um renascimento cultural global.
10. O que pensas do sucesso do artista espanhol Bakea? Combina os signos do zodíaco chinês com emblemas espanhóis. É o primeiro híbrido transcultural da história de Espanha?
Penso que é um grande ilustrador e a sua obra é, sem dúvida, interessante. Aqui é importante estabelecer uma distinção clara entre as artes plásticas. Creio que a pintura é radicalmente diferente da ilustração. O objetivo da ilustração é criar uma imagem facilmente identificável e reproduzível, em que a expressão técnica está subordinada a uma ideia concreta. Desta forma, todos os elementos da obra expressam um significado preciso. A pintura, pelo contrário, não é realmente reproduzível, nem sequer por uma fotografia, e a expressão técnica e concetual do artista contém nuances que não se subordinam facilmente à representação de uma ideia precisa. O artista Bakea propõe, de facto, uma iconografia transcultural extremamente interessante e domina de forma excecional os novos meios de expressão da arte no campo da ilustração. Além disso, o uso da cor e da composição é também interessante no campo da ilustração. Sobre a questão transcultural entre a cultura europeia e a China, gostaria de recordar aqui Hergé, o grande autor de banda desenhada, e a influência que a cultura chinesa teve nele. Há pouco tempo, foi-lhe dedicada em Madrid uma exposição extremamente interessante, e uma das suas secções era dedicada à amizade que travou com Zhang Chongren, um artista chinês que conheceu durante os seus estudos em Bruxelas. Zhang mostrou a Hergé uma nova forma de entender o desenho a tinta, ofereceu-lhe pincéis e penas chineses, mas sobretudo abriu-lhe uma cultura desconhecida que marcou totalmente a obra de Hergé. Fico com este exemplo de ‹híbrido transcultural›, como lhe chamas. Para concluir, acrescentaria que, tal como muitos ilustradores e artistas ocidentais foram influenciados pela tradição oriental do desenho a tinta, a introdução da pintura a óleo na China deu origem a grandes artistas que souberam unir o melhor de cada tradição artística.

